quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Politricks

José estava furioso.
Furioso ao ponto de esquecer do copo de balão com whisky, acabado de encher, intocado em cima da mesa. Desapertou o último botão da camisa, e atirou o blazer, sem se interessar para onde. Começou a andar dum lado para o outro.
Aquele merdas, daquele Juiz, topara-o. Não conseguia precisar quando, mas topara-o, sem sombra de dúvida. Logo quando, pela primeira vez nos últimos tempos, se sentia ao volante do próprio destino. Sentir-se antecipado, era voltar atrás, era perder tempo, era ser humilhado.
Sentiu-se enjaulado. Ao passar pelo copo de balão, atirou-o contra o bar. Sentia-se esgotado; deixou-se cair sentado no sofá, com um suspiro. Os olhos pousaram no tornozelo, ao invés de na pulseira electrónica, que ali devia estar.
Apostara a maioria das suas fichas (não a totalidade porque jogava há demasiados anos para saber que não se fazia all in numa só estratégia) na vitimização perante a comunicação social. E essa estratégia sofria o primeiro revés, porque a decisão do maldito juiz, em deixá-lo sem pulseira electrónica, impedia-o de estar preso. Logo, não podia continuar a inundar os jornais com "pedidos de liberdade para o coitadinho do preso político". 
Havia já uns anos, que os seus contactos no MP e na PJ o informaram de que os holofotes dos investigadores judiciais estavam a incidir com demasiada claridade nos seus parceiros de negócios, colaboradores e familiares (sendo que estes últimos eram um pouco dos outros dois também). As acusações que daí resultassem podiam ser graves, ao contrário das inofensivas investidas anteriores contra a sua pessoa, porque desta vez investigar-se-ia ao pormenor, juntando dados de inúmeros processos, aparentemente, esquecidos. Sem ele no topo da cadeia alimentar para abafar vozes dissonantes e repórteres intrometidos, com os partidos da oposição sedentos de sangue e com os maiores hipócritas justiceiros ao comando das operações, era uma questão de tempo até haver uma acusação forte o suficiente para o fazer suar. Nessa altura, José soube que tinha de fazer o que fizera a vida toda: preparar-se para ganhar.José fora, desde cedo, um prodígio no ofício de se preparar para ganhar, porque nunca perdia. Em criança, mesmo sem jogar bem futebol a sua equipa nunca perdia; era sempre o melhor aluno, mesmo sem tirar as melhores notas. Montava tudo para ganhar, logo ganhar era a consequência natural. 
Levantou-se para apanhar os cacos do copo, antes que o gato aparecesse e fosse beber o whisky da alcatifa. Mal soubera que ia voltar a casa, pediu a um amigo (o mesmo de sempre, claro) para lhe arranjar um gato novo. Adorava ter felinos em casa, porque era certo que eles iam fazer de conta que gostavam dele, e ele ia fazer de conta que gostava deles: o tipo de farsa em que se sentia confortável.
Assim que percebeu ser um alvo fácil em Portugal, deslocou-se para Paris, onde tirou a barriga de misérias da boémia que 6 anos de governação lhe tinham negado. Tivera a habilidade de manter os negócios a correr como até então, salvo algumas diferenças. A primeira, e a mais óbvia, era a distância, que só era problemática para o motorista, que fazia mais quilómetros e jantava mais vezes em estações de serviço. Manteve as mesmas rotinas e o olho aberto para novas oportunidades, porque se já estava debaixo de mira, mais valia apostar na previsibilidade do seu comportamento. A outra diferença foi ter passado a ser mais descarado em algumas das suas jogadas: porque lhe dava gozo deixar migalhinhas de pão para os merdosos do MP e da PJ pensarem que o estavam quase a apanhar e porque, perdido por cem, perdido por mil, ir ou não preso, podia fazer toda a diferença no seu caso.
Limpa a alcatifa, puxou dum cigarro, e foi fumá-lo para frente da varanda. Eram 03h30. Um carro descaracterizado da polícia observava-o do outro lado da estrada; um carro com os seus guardas-costas descansava um pouco mais atrás. Compôs os tomates nas calças de fato e continuou a pensar.
À medida que o tempo passara em Paris, e os telefonemas desesperados dos seus colaboradores se amontoavam no histórico de chamadas, José começava a dar como inevitável que teria um processo gigantesco contra si, ao qual não se renderia sem luta. Primeiro, teria de arrastar os sanguessugas para a luz, onde todos os pudessem ver, já que aquela gente apregoava a transparência à boca cheia. Voltaria a Portugal, cheio de pompa, e os velhacos deitar-lhe-iam a unha mal pudessem, para o humilhar. Mas não o fariam, porque ele os arrastaria, em simultâneo, para a lama. Como aconteceu, ficando tudo na mesma.
A prisão, mesmo que preventiva, era um ponto nevrálgico da estratégia que delineara meses antes, com os seus advogados, em Paris. Colar à investigação em curso os rótulos de revanchismo e perseguição política, era música para os ouvidos de José. Até acertaram os pormenores para a criação de movimentos cívicos, de norte a sul do país, urbanos e rurais, a exigir a sua libertação, aptos a fazer o máximo de barulho possível. Os advogados, propositadamente, dariam "tiros de pólvora seca" para o manter preso o máximo de tempo possível. E enquanto assim estivesse os incompetentes da oposição no poder afundar-se-iam nas intenções de voto das legislativas que aí vinham. Correndo como planeado, a oposição cairia de tal forma nas próximas eleições, que não se levantaria nos vinte anos seguintes; o seu partido mostrar-lhe-ia solidariedade, enquanto abafasse o processo, e ele, inevitavelmente, seria libertado, com a aura de um beato. Sem maiores considerações, ou oposições, seria o candidato natural e crónico a qualquer cargo de poder em Portugal, qual Putin, travestido de Mandela.
Mas o maldito Juiz percebera tudo. Começara por testá-lo ao sugerir a sua libertação, e colocação em prisão domiciliária com pulseira electrónica. José recusara, claro. Isso poria em causa todos os esforços que envidara e a chacota a que se expusera. Não entendera como a calamitosa Justiça portuguesa o podia querer libertar tão cedo, após anos a tentar enfiar-lhe o dente; nem pensar, não podia ser: continuaria preso. Eles precisavam dele atrás de grades para que não falasse, para não levar a todos os palanques do país a sua indignação perante a vergonha de prender, "injustamente", um ex-primeiro-ministro. Ninguém adivinhava que o juiz fosse preferir tê-lo em liberdade, sem pulseira electrónica, do que preso a estrebuchar como um animal feroz, com as suas cartas aos jornais, retórica vitimista, e as manifestações dos seus apoiantes à porta da cela. Fora um revés, e uma surpresa que ainda não encaixara. Como se não bastasse, o próprio partido andava a meter os pés pelas mãos na campanha para as eleições mais fáceis de ganhar de sempre! Tanto em Paris, como na prisão desdobrara-se em contactos para ajudar a (mais uma vez) pôr ordem na casa de todas as vozes dissonantes, deixando o caminho aberto para uma nova direcção constituída por homens da sua confiança, habilitados, por sua vez a limpar o seu nome e a sua herança. José não conseguia compreender como é que, agora, esta gente conseguia ser de tal modo energúmena que mal se conseguisse aguentar no segundo lugar das sondagens. O cenário era grave. A oposição estava perto de ganhar as eleições e ele perto de ser condenado sem qualquer glória.
Era urgente pôr mais jogadores em campo, e ditar novas regras. Ou pensava nalguma solução naquele preciso momento para pôr em marcha de imediato, ou estava sujeito a ver os comunistas passar à frente do seu partido...
«Espera lá... E se isso acontecesse mesmo?»
Uma erecção  esboçou-se atrás das suas calças. «Se os cabrões dos comunas tiverem uma votação recorde, pode ser que consigamos formar governo e esmagar os outros paneleirotes», pensou José. O entusiasmo era tanto que chegou a ter medo de perder o fio à meada, e de se excitar em demasia.
Correu para a secretária e começou a fazer desenhar diversos cenários pós-eleitorais, possibilidades de acordos que tivessem o "ok" dos comunas e dos comunas burgueses, sem ficar dependente deles. Ao fim de quase duas horas, a fazer a futurologia de primeira água, como poucos comentadores conseguiriam, e tecer, com a tinta da caneta, uma intrincada teia de nomes, medidas, datas e condicionantes, não pôde deixar de desabafar consigo mesmo que o país tinha perdido um bom engenheiro, no momento em que ele se dedicou à política.
Lentamente, o cérebro arrefeceu-lhe, e a adrenalina fugiu-lhe do peito; abriu e fechou a mão, rija de passar tanto tempo a escrevinhar. Grande epifania, a que tivera; o partido podia safar-se, se ele conseguisse pôr aquela estratégia em andamento. Mas só lhe interessava o bem estar do partido, quando isso ajudasse ao bem estar dele, e a verdade é que o seu disfarce fora descoberto. Os imbecis a quem dera o poder de mão beijada não iam proteger-lhe as costas depois de se verem em S. Bento, e a ele em Caxias; não, iam ficar nas suas costas, mas prontos para o foderem mal pudessem: o seu nome começava a ser tão incómodo como quando perdera as eleições, e isso afastava aliados. O processo de dimensões bíblicas que seria divulgado dentro de dias contra si, iria fazer corar de vergonha os calhamaços do processo dos pedófilos da Casa Pia, e essa era péssima publicidade para qualquer político. A prisão seria quase inevitável. Depois de perder a fama de preso político injustiçado, a que se poderia agarrar?
Já era quase dia quando, ao divagar sobre o cerseamento das liberdades individuais dos presos, se apercebeu que o voto não era uma delas. "Os presos podiam votar", o pensamento ecoou-lhe na cabeça, qual charada. E ele seria um ex-primeiro-ministro preso, em plena legislatura de maioria encostada à esquerda radical de estalinistas e burgueses efeminados. Sorriu, vitoriosa e desdenhosamente. Desde o início, que a sua estratégia estava certa: roubar até ser caço, partir a louça toda, e ser condenado à prisão.
Preso estaria fora do radar. Depois de preso, não teria mais nada a perder: apenas a pena poderia aumentar ou diminuir. Mas preso poderia continuar a contactar e controlar quem estivesse fora. Para isso tinha de, primeiro: meter no poder quem ele sabia que quem conseguia controlar ou manietar. Segundo: tinha se assegurar que quem governasse tivesse medo de divergir das suas linhas orientadoras. Preso estaria protegido, mas não era suficiente. Tinha de deixar o governo com medo dos próprios presos, o que não era assim tão difícil, visto que os presos votavam. Só tinha de aumentar o número de presos. Drasticamente, e o mais rápido possível.
Até soltou uma gargalhada, como se fosse um vilão do James Bond. Os comunas moderados podiam ser facilmente ludibriados a apoiar um aumento do número de celas, de prisões e das qualidades das mesmas, de modo a que estar preso fosse o mesmo que viver num condomínimo fechado, e ao mesmo tempo apoiar uma caça judicial aos corruptos, aos burlões, aos empresários que fogem do fisco e da Segurança Social; aos polícias e magistrados caberia continuar a perseguir os bandidos comuns. A economia continuaria  rolar, porque as vias de comunicação estariam completamente escancaradas de modo a que quem estivesse preso continuasse a manter activos os seus processos de acumulação riqueza. O único problema seria convencer os comunas a aumentar a pena máxima. O máximo de 25 anos era pequeno, e dificilmente conseguiria que se aceitasse a prisão perpétua em Portugal, à semelhança dos restantes países evoluídos da Europa. Aumentar a pena máxima para 35 ou 40 anos já lhe parecia possível. Era tudo uma questão de capitalizar a fúria da direita contra a sua pessoa, mediante uma proposta do seu próprio partido. Jogando bem as suas cartas, e feitas as contas, José imaginava que fosse possível em 10 anos que a população presa passasse a ser um terço da população activa nacional, da qual ele contava ser o arauto e porta-voz. Um estado dentro do Estado, enclausurado e violento, a que as próprias forças políticas não podiam ficar indiferentes, e que, a pouco e pouco ditariam as suas regras e as suas condições, aumentando de geração em geração.
Nem Marx ou Álvaro Cunhal se atreveriam a projectar tão ousada utopia socialista em Portugal. Um comunismo de presos. A ideia fê-lo rir mais uma vez. A última vez que se rira assim fora quando se lembrara de atribuir classificações honrosas, que ele próprio inventara, às competências adquiridas por adultos ao longo da sua vida. Admirava-o esta sua própria capacidade para camuflar os seus próprio proveitos, nas mais estapafúrdias experiências sociais.
Não havia razão para perder mais tempo. Pegou no telefone e ligou para quem era mais urgente convencer no meio daquela história toda: Jerónimo, o caquético líder dos comunas. "Estou sim? Viva Camarada! Ainda bem que o encontro a pé...."

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Alambique

Adnan levanta a cabeça do seu smart phone de última geração com 3G. À sua volta, os seus familiares e vizinhos estão amontoados uns em cima dos outros, como bonecos de trapos, encharcados pela água do mar. De 3 em três horas, atira um deles da pequena embarcação, com esperança que vá desaguar numa qualquer praia e seja apanhado pelas objectivas dos repórteres europeus.
Volta a olhar para o ecrã mágico do seu dispositivo móvel e a perder-se na nuvem. Está à procura do seu alvo na Guerra Santa. "Hmmm, França, Espanha, que país pequenito é este aqui na ponta? Portugal..."
Um vídeo qualquer sobre pizza com extra queijo e pepperoni chama-lhe a atenção. Nunca provou pizza, muito menos de pepperoni, a sua religião não lhe permite comer carne de porco. Isso e receber assistência da Cruz Vermelha. É bastante problemática, esta religião. Adnan não se importa. É tudo o que conhece: ódio aos infiéis e à bandeira da Suíça — que nojo.
Está a sonhar acordado quando o alarme soa, lembrando-o que tem de lançar mais um cadáver. Perdeu-se a ler artigos e listas e mais listas de tops mundiais dos melhores países, onde Portugal aparece sempre. "Como é possível nunca ter ouvido falar deste país e eles terem o melhor vinho verde, a segunda melhor cidade do mundo para visitar em época baixa, a sétima casa mais rústica feita em pedra e a terceira praia mais limpa?" — pensa, enquanto lança o seu ex-primo de 7 anos borda fora.
Dez anos depois, Adnan é um exemplo de integração. Sabe o hino, come tremoços a ver a selecção. Tem o símbolo da Federação Portuguesa de Futebol tatuado no braço. Já come rojões, e embora as cruzes ainda lhe queimem a pele como o vampiro estrangeiro que é, não deixa de ir ao Feice comentar os assuntos sociais de relevo.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Ad Men

A determinado momento do século XXI as grandes corporações atravessaram uma crise de imaginação. (Bem sabido que as crises são cíclicas, vão e vêm, e como a gripe não há vacina que as elimine de vez, apenas as afasta o tempo necessário para retornarem noutro disfarce.) Os mercados tinham-se uniformizado, globalmente globalizados, a informação era acessível à generalidade do público que interessava que comprasse, e este mantinha o poder financeiro para o fazer. Uma questão quase tão velha como o mundo revolvia por debaixo dos cabelos semi-grisalhos dos executivos: como vender mais do seu produto? Os mercados alimentavam-se, desde sempre, de competição, de guerra sem quartel entre oferta e procura. A procura estagnara, e estagnava a olhos vistos em resultados aceitáveis para todas as facções. A oferta acompanhava-a em insipidez.
Sem muitas delongas, esta preocupação foi passada para os departamentos e agências de publicidade das respectivas corporações. Mentiríamos se disséssemos que por serem profissionais pagos a peso de ouro para montar estratégias, estudar mercados, criar hypes, os publicitários desencantaram a forma alquímica que resolvia os problemas dos homens do dinheiro (e dos homens que produziam e dos que trabalhavam, e toda a linha de montagem de gente que alimentava as corporações). Na verdade, muitos estagiários passaram noites em branco fustigados com a doença, provocada pelo espirro dos seus clientes. Muitos criativos debruçaram-se, preocupadamente, sobre o assunto, inclusive quando saíam do trabalho e antes de gastar o imenso dinheiro que ganhavam, mas também sem encontrar uma solução.
Como a crise foi genérica, e todas as corporações a começaram a combater em segredo para não exporem a fraqueza que todas sabiam que todas tinham, o que aconteceu a seguir entrou mais depressa no imaginário mítico do que nas revistas científicas da especialidade. Isto porque quando se percebeu a eficácia de uma solução, as corporações atacaram o público como chacais esfomeados, e tornou-se muito difícil rastrear a autoria da estratégia, numa época em que a informação era bombardeada de todos os lados. Consta-se que a "guerra" começou quando o carro onde seguia o presidente do conselho de administração de uma corporação virou para a rua da sua sede (que era o quarteirão inteiro) e reparou que a placa da rua fora mudada: a rua da sede da sua corporação passar a ter o nome da principal marca rival da sua corporação. Em pânico, entrou na net e constatou que a rua da sede da corporação da marca rival também fora rebaptizada mas com o nome de outra das suas marcas. Ainda não tinha entrado no escritório quando já deu luz verde ao departamento publicitário para fuzilar os insolentes com uma campanha três vezes maior. Assim, dizia-se, começava um conflito de ideias à escala mundial, e uma nova era dourada da publicidade.
A estratégia em si, tinha barbas. Já há muito se baptizavam estádios de futebol, festivais de música, ou eventos de caridade com marcas comerciais. Mas patrocinar ruas era terreno virgem. Na verdade patrocinar o terreno público era tão ousado que ainda não cruzara a cabeça de ninguém. Até ao momento em que alguém o fez, e se iniciou a corrida ao armamento. Todas as pessoas nasciam, viviam, trabalhavam, conviviam e morriam em determinada morada, que mencionavam repetidamente desde que aprendiam a articular sons, até ao silêncio final. Poucas corporações se deixaram ultrapassar pelo sentido de oportunidade da concorrência, e em menos de um ano (de acordo com o imaginário mítico criado, única fonte histórica segura do que se passou naquele tempo) todas as ruas, bairros, circunscrições administrativas de toda a sorte, cidades, regiões e até países, estavam patrocinados por alguma grande marca, de uma forma ou de outra.
Apesar do choque inicial, e de algumas convulsões sociais, o paradigma acabou bem aceite. Afinal todos eram peões (e cúmplices) no consumo de massas, sobre o qual achavam ter pleno controlo, através do democrático acesso à informação dos produtos e à divulgação dos seus benefícios e defeitos. Pobres almas, não se deram conta da erosão da sua memória comum, substituída pelas denominações invasoras, impostas pelas corporações, das suas marcas e produtos.
Os publicitários assumiram, em pleno, o papel de novos garimpeiros, e não deram tréguas uns aos outros na ânsia de descobrir um novo mercado a necessitar de um "baptismo" para ser rentabilizado, ou de um patrocínio que ainda estivesse por atribuir. Impingiram marcas de segunda categoria a autarquias frágeis, e os produtos do magnata da terra ao respectivo bairro mais necessitado. Orgulhosos, os publicitários davam-se conta de reinventar a toponímia do mundo todo, criando quase um novo feudalismo, onde o nome do suserano era substituído pelo de uma marca de um produto. A "guerra" era uma realidade. Os publicitários trabalharam bem para a tornar a única realidade.
Os publicitários com mais visão anteviram, logo após o início dos "baptismos", que os mesmos se revelariam insuficientes dentro de pouco tempo. Afinal, a "guerra" nascera da estagnação de ideias, fora germinada em terreno árido uma estrutura empresarial agressiva em torno da ideia de conquistar território às agências das outras corporações. A máquina da guerra se não é alimentada, é engolida; se espremessem já toda a estratégia, a máquina desmoronaria. De modo que, ainda antes de estarem esgotadas todas as possibilidades toponímicas locais, regionais ou nacionais, já estavam a atacar um novo mercado: nomes próprios. Se as pessoas tinham de mencionar, repetidamente, o nome do sítio onde viviam, onde tinham vivido ou para onde gostavam de ir, muitas mais vezes tinham de repetir o próprio nome e os nomes umas das outras, o que conferia  ao patrocínio de nomes um potencial publicitário muito maior.
As corporações apressaram-se a comprar e a implementar a ideia, em simultâneo e de imediato. Para tal pressionaram diversos governos a alterarem a respectiva legislação de registo civil para ser regra, e não excepção, que um indivíduo pudesse escolher dar aos filhos o nome que bem entendesse (encontrando-se destacados na lista oficial de nomes sugeridos, o das marcas das corporações patrocinadoras), além de poder alterar o próprio nome quando assim pretendesse. Este novo passo na "guerra" teve uma aceitação mais titubeante, e não foi implementado com o sucesso inicial que se previa. Por alguma razão que os estudos dos publicitários não deslindavam, o público tendia a ser mais conservador na hora de escolher o nome dos seus rebentos e de mudar o seu. Mas os publicitários tinham demasiada fome de resultados para confiar ao tempo o sucesso da sua estratégia. Começaram por alterar os seus próprios nomes para o das marcas que representavam, e aconselharam os trabalhadores das corporações a fazer o mesmo. Nas entrevistas de trabalho, as corporações começaram a dar preferência à admissão de pessoal que tivesse no nome alguma marca que comercializavam e a recusar quem, ao invés, tivesse nome de uma marca adversária. Mas a estratégia não ficara por aí: sempre pragmáticos, os publicitários, alteraram algumas marcas de modo a assemelharem-se mais a certos nomes pessoais, e assim serem mais facilmente escolhidos. O marketing revelou-se certeiro e após alguns anos, as fichas de presenças dos infantários já se assemelhavam a verdadeiros catálogos de compras.
O último grande raide da época dourada dos publicitários ocorreu após perceberem que a ausência de um novo alvo para a "guerra", ou de uma estratégia totalmente nova, degeneraria, a breve trecho numa nova estagnação. Algo que alguns visionários já tinham imaginado, mas sem terem concebido uma solução à altura da que aconteceu com o patrocínio dos nomes. Debaixo da respiração pesada e esfomeada dos corporativos, os publicitários começaram a contar espingardas: já tinham "baptizado" locais, já tinham "baptizado" nomes, o que faltava? "Falta tudo o resto": os descamisados e ensonados criativos esfregaram os olhos na direcção do autor da resposta. Segundo se consta, ela foi dada por um desses estagiários que não via a cor dos lençóis há uma semana, com mais cafeína do que glóbulos vermelhos no sangue e mais fumo de cannabis do que ideias no cérebro, e com uma ingenuidade de génio dera aos patrões o ovo de Colombo: faltava patrocinar tudo o resto! Mesmo quando já não havia assim tanto por patrocinar? Claro que havia. Desde logo, o resto eram as coisas. Quaisquer coisas. O mundo estava repleto de coisas. Resolveu-se patrocinar a própria designação dos objectos; todos eles. Um garfo deixou de ser um garfo passou a ser uma marca. Um casaco deixou de se chamar casaco, passou a chamar-se uma marca de casaco, vendida por incontáveis marcas de casaco. Os nomes dos alimentos não escaparam. Muito menos os animais. Nomes científicos também não. Desde o mais insignificante objecto ao mais pujante corpo celeste passou a ser cobiçado para rótulo de uma determinada corporação.
A disputa pela palavra "publicidade" foi uma guerra dentro da "guerra", literalmente sanguinária e da qual não houve vencedores nem vencidos: apenas um múltiplo retalhamento, sem dó, da palavra em diversos sinónimos, um para cada corporação e agência com peso nos mercados. A diplomacia musculada, digna de qualquer cimeira entre impérios coloniais, presidiu também à discussão em torno da publicitação dos números. "Mas as crianças nas escolas precisam deles", disse alguém para gargalhada geral dos seus congéneres: uma vez mais, uma história do domínio do mítico sem base factual. A solução lá enganou a fome das corporações: os símbolos numéricos eram deixados à margem do conflito (por então), mas os números por extenso, escritos ou falados, estavam no mercado como qualquer outra coisa.
Quando todos os substantivos de todos os dicionário já estavam conquistados, os publicitários aproveitaram o andamento, e atacaram os adjectivos. Os pronomes foram chacinados sem dó. As preposições submetidas. Os verbos, respectivos tempos e conjugações, foram quem mais resistência ofereceu, e até ao último fôlego rechaçaram as implacáveis investidas dos publicitários. Mas a guerra já não era guerra: era só uma questão de tempo. Após o cerco feroz aos verbos, o seu reduto foi pilhado e conspurcado, e os pobres resistentes foram levados, em correntes, ao chicote das corporações que os cobiçavam desde o dia em que o primeiro objecto deixou de o ser. Os sinais de pontuação e acentuação, julgaram que passariam despercebidos enquanto mantivessem o seu silêncio, mas em vão. A regra de excepção para os símbolos numéricos acabou por prescrever. O apogeu foi alcançado. Depois da vitória da publicidade sobre as imagens, eis a vitória sobre as línguas. Comunicar e propagandear eram uma e só coisa. Não houve oportunidade para assinar nenhum armistício: a "guerra" venceu, permanecendo.
Corporações e publicitários viveram felizes enquanto os satisfez aquele estado de coisas que levaram décadas a construir. Manter  a máquina que se montara, era tarefa que consumia bastantes recursos e tempo a todos os intervenientes, e tão cedo não precisaram de pensar em mais nada. Mas a doença não fora erradicada. A crise estava à espreita. Bastava um executivo espirrar numa hora de particular tédio, para agitar as águas: o mercado voltara a estagnar, e o monopólio oligárquico já não era suficiente para ninguém. Aquando um jantar informal de negócios, desses em que executivos e publicitários, debatiam as suas dores de espírito entre vinhos caríssimos e comidas exóticas, alguém lançou o tiro: e fazerem com a música o que tinham feito com a língua?

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Senegal

Abriu o arquivo, procurou o ficheiro. Atirando pelo ar as pastas que não lhe interessavam, ainda demorou vinte minutos a encontrar o que queria.

Sentou-se no meio da papelada irrelevante no chão, focou-se na tarefa que tinha em mãos. Antes de pousar a folha na mesa de café, arrastou os búzios que estavam em cima dela para o chão. Leu o nome na folha, fechou os olhos, respirou fundo. Se esvaziar a mente era difícil, faze-lo quando podia estar tão perto do fim era uma tarefa tremenda.

Com esforço, o raio de alcance dos seus sentidos foi expandindo. Encontrou o "cliente" mais depressa que o ficheiro. Os sentidos dele passaram a ser os seus. Via o que ele via, ouvia o que ele ouvia.

À sua frente, à frente do homem cujos olhos ele estava a usar, estava Cheikhou Papa Niasse. O sorriso de Cheikhou Papa Niasse, na cara de Cheikhou Papa Niasse, num corpo que não parecia de Cheikhou Papa Niasse. Sempre o tinha visto fardado. Guerrilheiro rebelde, no pico da forma física. Agora via um homem ligeiramente acima do peso, vestido com fato e gravata.

O seu "cliente" apertou a mão de Niasse e este abriu o braço, indicando-lhe que entrasse no gabinete. Os dois homens trocaram palavras amigáveis e fumo de charuto. As vezes, quando povoava o corpo de alguém, era difícil manter-se focado e deixava-se levar pelas conversas, pelos gestos, espectador na primeira pessoa. Desta vez, teve de se forçar a concentrar nos detalhes para se acalmar.

Viu uma faca romba para abrir envelopes em cima da mesa. Não servia. Fez um pouco de força, levando a cabeça do seu hospedeiro a virar-se ligeiramente para a esquerda, o mínimo possível para que este não reparasse que algo de estranho se estava a passar. Nem um segundo depois, o "cliente" rodou o pescoço para o lado oposto com desconforto, e massajou-o, mas nunca parou de conversar. Perfeito. A fracção de segundo em que olhou para a esquerda foi suficiente para encontrar o que procurava: uma espada pendurada na parede, escolha decorativa óbvia para um ex-rebelde MDFC. Quem sabe, a mesma espada que Niasse tinha usado para matar o Padre Augustin Diamacoune Senghor, escalando o conflito armado do seu país natal.

Quando Niasse se levantou e virou as costas, procurando qualquer coisa na prateleira, tomou todo o controlo do corpo do seu hospedeiro. Correu para a parede, agarrou a espada, puxou. Niasse foi apanhado de surpresa, mas reagiu com bastante celeridade, dadas as circunstâncias. Correu para o seu (agora) inimigo e agarrou os braços deste que já desciam com a espada em punho. Apesar de estar fora de forma, o ex-rebelde foi mais forte e a luta não durou muito. Ainda sem perceber bem o que se estava a passar, mas percebendo perfeitamente que tinha a vida em jogo, Niasse rapidamente subjugou o seu oponente, puxou de um revólver que trazia oculto em alguma parte do fato e disparou.

Putain! - não havia nada a fazer agora. Tinha falhado. De certeza que o seu alvo iria fugir do país em estado de alerta, nunca mais lhe voltaria a pôr as mãos em cima.

Deixou-se ficar, à espera da morte inevitável do seu "cliente" baleado. Ainda conseguiu ver Niasse a abrir uma frincha da porta do escritório e a espreitar, tentando perceber se alguém tinha ouvido o disparo.

Tanto trabalho, tantos anos a fazer-se passar por curandeiro. Incontáveis rituais de possessão...

Uma empregada de limpeza empurrava o carrinho pelo corredor. Quando viu o homem a abrir a porta de repente, assustou-se e virou o olhar para o chão, envergonhada.

Aquela cara não lhe era estranha. AQUELA CARA NÃO LHE ERA ESTRANHA! Deixou o estado de transe em que o seu verdadeiro corpo se encontrava. Acordou no meio da papelada, dos arquivos que julgou não voltar a precisar. Procurou no chão, sabia que estava à procura de uma pessoa da mesma área de residência. Maria do Carmo, quase chorou quando leu o nome da ficha com a fotografia correcta.

Nunca na vida entrou em transe tão rapidamente. Segundos depois, acordava no meio de um corredor, esfregona em punho. Não havia tempo a perder. Perdeu os chinelos no caminho de volta ao escritório de Niasse e viu o próprio à porta, fechando-a à chave. Correu, atirou-se contra o homem sem a mínima auto-preservação e com o peso do corpo da empregada, atirou-o pelas escadas do prédio.

Niasse era um osso duro de roer, mas ficou inconsciente depois do encontro de cabeça com o segundo andar. A empregada de limpeza estava amachucada mas não estava imobilizada. Abstraiu-se da dor, procurou a arma no bolso do homem, disparou. Verificou os sinais vitais e quando não encontrou nenhuns, saiu do transe.

Depois de tantos anos a sentir-se no corpo de outras pessoas, desta vez não se sentia ele próprio no seu corpo. Nem parecia verdade. Tinha cumprido a missão de espionagem. Podia voltar para casa. Podia rever a sua família.

Chorou, riu, voltou a chorar. Enxugou as lágrimas e permitiu-se alguma vaidade.
"Com o Professor Bambo, ninguém fode!"

domingo, 9 de fevereiro de 2014

antes de o tempo os mudar

de madrugada, sempre arrastava os pés porta fora,
calçada quente abaixo.
eu sabia-a desde que sou gente
escondida entre as saias pretas e os xailes
feios de circunstância
a chorar
funeral sim funeral não
e a lamentar aos lenços fungosos que
“o ‘mai mal era dos que partiam”
que para esses não havia remédio.
lavava os mesmos farrapos na represa há anos
estrangulando as pedras com um esfregão verde
resmungando entre dentes contra
presidentes de junta engravatados
que comparava aos suplentes da bola
- sentados e a não fazer um caralho.
tinha um campo,
terreno de semeadura
coisa pequena mais dois ou três barracos
um galinheiro com quatro ou cinco galinhas.
volta e meia podava aqui e ali
mas as poucas árvores que eu via
não davam filho e estavam condenadas
aos enxertos de quem não sabe o que é fruto
tão mirradas e tão pálidas como
as espigas em ano mau
entregues à podridão da semente
e alheias ao chegar novo de cada abril.
e se eu disser que não tinha eira
não tinha filhos
nem tampouco sabia o que era ter homem
e que o diabo carregasse
as que os tinham às mãos cheias,
não minto.
e todo o ano era esperar
esperar,
esperar um maio seguinte
em que pudesse dar o nome para a excursão
porque raios partam se não tinham mesmo
aparecido os três pastores em frente à virgem
tocados, palavra de honra, pela promessa
de que vinha aí coisa ruim
se não bradássemos aos céus
as cinquenta ave marias e salve rainhas a galope.
e era sempre a primeira a chegar ao adro da igreja
- pataniscas e azeitonas e broa de milho e o garrafão
de maduro prontos e impacientes
para os quilómetros de peregrinação
sentada
a ouvir o terço
rosário de pérolas amarrado à mão esquerda
a passar as contas à pressa, como quem não sabe
se faltam oito ou oitenta
até à última área de serviço.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

MANHUNT

Bati a porta da cabana, e ela quase saiu dos gonzos. Involuntariamente, pensei no trabalho que daria reparar aqueles gonzos, tão difíceis de arranjar naquelas latitudes, mas não, foda-se!, tinha de me concentrar. Quando fico nervoso disperso e não penso coisa com coisa, porém, naquele momento, não podia ser, precisava de todo eu. Expirei fundo, e dei um biqueiro na mesa que a virei: a mesa não tinha dado trabalho nenhum a fazer. Peneirando todos os pensamentos / porcaria que me assaltavam a ideia aos berros, a atropelar-se para conseguir a mais mísera atenção do meu cérebro que já os / a topou a léguas e sabe só quererem aparecer, destacar-se e ter quinze, efémeros, segundos de fama na minha vida, pelo que, com uma precisão cirúrgica, recortei o meu problema da salgalhada: a pedra que eu lançara, pouco antes acertara na cabeça de algo ou alguém, que não estava sozinho. Parecera a cabeça de um urso, se não era um urso e era gente, pior, com mais gente, pior ainda, se armada, eu podia estar bem fodido na possibilidade de me terem seguido. Se fossem ursos e me tivessem seguido, não estava em melhores lençóis, concluí. Não distinguir a cabeça dum urso da cabeça duma pessoa era, provavelmente, dos episódios mais anedóticos e trágicos que me acontecera nos últimos tempos. A minha mulher desfazia-se a rir de mim, como sem ligar um corno à minha legítima e apavorada preocupação. Mas a minha mulher tinha morrido, comida por um urso. Será que a minha confusão, veio na sequência de algum tipo de trauma? Impossível, disse eu em voz alta, a afastar o mau olhado com o vapor de água que se cuspiu da minha boca. Caminhava em passo apressado, dum lado para o outro, agarrado à lança, como a uma bengala. Era impossível, continuei a dizer, desde logo, porque o último episódio do género deste, de uma confusão minha e consequências incalculadas, acontecera há já alguns meses quando, depois das necessidades, eu ter limpo o rabo a um molhe de urtigas, em pleno dia. Nem sequer percebi que estava rodeado de urtigas. Dessa vez não viera mal nenhum ao mundo, só ao meu rabo. Agora o caso era outro. Naquele sítio inóspito existia toda a sorte de atravessados dos cornos, como dizia o meu velhote. O que o tornava suportável era ser tão, mas tão inóspito que raramente algum de nós se deparava com um outro homem ou mulher, ou seja, com atravessados. Os ursos eram mais numerosos, mas morriam com uma pedrada certeira na cabeça. Pessoas, já dependia. Parei, mal me pareceu ouvir algo fora da cabana. Um roçagar na folhagem. Uma pegada na neve. Um sinal murmurado para dar início à invasão, foi algo desse género que eu ouvi. Um cartucho metálico entrou dentro dum metálico cano, duma metálica espingarda. Espingarda? “Estou fodido.”

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O Datado

Poucos se intrometiam com o datado. O datado era assim conhecido pelas pessoas da vila, da mesma forma que elas haviam conhecido os pais dele, e os pais desses, até agora só o conhecerem a ele, o último datado. Um único ser humano (pelo menos não conheciam outros) que cismava em comer, falar, escrever e em fazer um sem número de outras actividades elementares, à própria maneira, mais correctamente, própria de, sabia-se lá, há quantas gerações antes. Por isso lhe chamavam o datado, embora tivessem alguma pena dele, como daqueles que o antecederam, por se privar(em) das conquistas da modernidade, só por ser(em) teimoso(s) ou orgulhoso(s) demais para querer(em) saber com quantas engrenagens o mundo novo se movia. O datado metia-lhes pena, não o entendiam. Parecia-lhes um profundo idiota. Mas poucos se intrometiam com ele, travavam conversa com ele ou tinham interesse em travar, ninguém queria saber o porquê de ele ainda ser irredutível nas suas opções. A justificação oficial era de que não se demove um idiota, convicto no seu erro depois de lhe ser explicado e demonstrado que está em erro; na verdade, ninguém queria ter de descobrir que o datado não era idiota nenhum, que tinha uma razão para fazer o que fazia, razão que sempre existira, e o problema era da vila, do país e de todos quantos nunca lhe prestaram atenção. O argumentário da justificação oficial era, de longe, mais bem construído quase irrefutável, pelo que adoptavam sem mais, evitando debruçarem-se sobre o assunto, excepto em noites de maior bebedeira. A mais e mais eles nunca seriam como ele, nem ele como eles, e como tal, tudo bem.